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JORNAL ESTADO DE MINAS - 31/07/2005
Balanceamento Cerebral
Programa desenvolvido por especialista visa melhorar desempenho do cérebro
Ellen Cristie A partir de estudos desenvolvidos na Suíça, na área de condicionamento cerebral e EEG espectral - Neurofeedback, o neurocientista Paulo Faria desenvolveu um programa de estimulação sensorial controlada ou balanceamento cerebral, capaz de melhorar as condições de funcionamento do cérebro, tanto de pessoas sem comprometimento aparente como de pacientes com distúrbios neurológicos. Trata-se de um método não invasivo, sem utilização de medicamentos e com resultados significativos.
“Eu me aprofundei no estudo de muitas patologias para descobrir quais eram as formas de melhorar o funcionamento cerebral de pessoas doentes e desenvolver protocolos específicos para cada caso”, comenta o especialista. “Foi então que descobri a necessidade de elaborar um programa de estimulação sensorial controlada e exercícios para cada situação, ainda que a patologia fosse a mesma”.
Paulo explica que duas pessoas com seqüelas de derrame, por exemplo, podem precisar de programas bem diferentes. “Tudo, na verdade, depende do tipo, da localização e da intensidade da lesão”. Através de um equipamento de biofeedback – EEG Espectral – o especialista avalia o funcionamento dinâmico do cérebro e tem condições de interferir no sentido de melhorar o quadro via estimulação visual, auditiva, entre outros.
Ele acrescenta que as aplicações são divididas em terapêuticas e não terapêuticas. No caso das primeiras, o balanceamento cerebral pode atuar em distúrbios de aprendizagem, atrasos de desenvolvimento, síndrome do pânico, paralisia cerebral, lesões por traumatismos, acidentes vasculares cerebrais e lesões neurológicas causadas por falta de oxigenação do cérebro ou em doenças degenerativas, como esclerose múltipla, mal de Parkinson e Alzheimer.
O uso não terapêutico do programa, mais comum nos países desenvolvidos, aumenta a capacidade de concentração, especialmente em atletas de esportes especializados, a exemplo do tênis ou do tiro ao alvo, e de empresários e executivos que querem melhorar seu desempenho.
O programa funciona da seguinte forma: o paciente é avaliado enquanto desempenha diversas atividades que o obrigam a utilizar muitas áreas e funções do cérebro, entre as quais leitura, cálculos matemáticos, relaxamento e raciocínio lógico. Em caso de crianças ou pacientes com prejuízo cognitivo, a avaliação é feita empregando-se também testes dos reflexos corporais.
BEBÊS
O método é aplicável em pessoas de qualquer idade, até mesmo bebês, pois não há contra-indicações ou desconforto. O programa possibilita saber quais funções e áreas do cérebro devem ser estimuladas. Com a estimulação sensorial adequada, torna-se possível, na grande maioria dos casos, despertar e recuperar as funções comprometidas.
A duração do tratamento varia de pessoa para pessoa, mas, em alguns casos, é possível verificar alterações positivas em menos de uma semana. Paulo Faria faz questão de deixar claro que não trata as doenças, mas as alterações funcionais que elas causam no cérebro e no sistema nervoso. “Se é possível melhorar a qualidade de vida do paciente, para que ele tenha uma vida mais independente, mais próxima de sua autonomia, por que não fazê-lo?”
Problemas como déficit de atenção, dislexia, hiperatividade e déficit de memória também podem ser tratados com o balanceamento cerebral. “Hoje, uma criança com dificuldades de aprendizagem e concentração pode passar pelo programa de balanceamento cerebral e continuar com exercícios específicos em casa para acelerar o processo de recuperação”, afirma Paulo. “O mesmo se aplica em casos de déficits ou perdas motoras resultantes de seqüelas neurológicas por acidentes vasculares cerebrais, doenças degenerativas e traumatismos”.
Bom humor depois do susto
O publicitário Toni Campos, de 61 anos, vive há dez anos o desafio de acompanhar o filho Pedro, de 21, na caminhada de recuperação, após ter sido atropelado, aos 11, na porta do colégio. Pedro chegou a ficar em coma durante 40 dias e foi desenganado pelos médicos. “Teve quem falasse para eu desistir do meu filho, mas ele sempre foi valente e continua provando isso”, argumenta o pai.
Embora o publicitário tenha passado por momentos difíceis, nunca perdeu as esperanças. “Claro que restaram seqüelas, mas o Pedrão, que não ia viver, viveu. Que não ia falar, falou. Que não ia mais andar, hoje anda, faz capoeira, natação, joga sinuca, escreve textos e está se socializando mais a cada dia”.
Há cerca de três meses, Pedro começou a fazer o balanceamento cerebral e já fez 14 sessões de aproximadamente uma hora. Toni já percebe algumas mudanças, tanto no humor do filho como na postura física. “Ele está caminhando mais firme, a coluna está visivelmente mais ereta, a voz mais forte e nítida. O melhor centramento resultou num bom desempenho na natação e capoeira, na avaliação dos professores”.
O pai acredita que houve progresso na superação das seqüelas, especialmente para quem teve o cérebro afetado na região frontal. Toni afirma que há ainda um longo caminho a percorrer, mas que a ciência e a tecnologia têm se mostrado grandes aliados em casos como o de Pedro. “Os pais deveriam sempre estar pesquisando novos caminhos, porque tenho certeza de que essa é uma busca altamente compensadora”.
Outros aspectos fundamentais para a recuperação, segundo Toni, são a união e o empenho da família, a solidariedade e o carinho dos amigos, além da dedicação de bons profissionais. “Não há esforço no mundo que não seja recompensado com o sorriso e o abraço do Pedrão”, conclui o publicitário.
* Publicado no Estado de Minas, de 31/07/2005
