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JORNAL HOJE EM DIA - 07/09/2005

Estímulo cerebral contra o pânico


DrPauloFaria

O neurocientista Paulo Faria afirma que os resultados podem começar a aparecer no primeiro mês de tratamento, mas não dispensa os medicamentos (FOTO CRISTIANO MACHADO)

Bruno Moreno
Repórter

Insônia, queimação no corpo, irritabilidade, stress, ansiedade, nervosismo e medo de morrer. Esses eram os sintomas da doença do pânico que o analista financeiro C.F, 24 anos, sentia, desde os 15 anos, tendo crises mais fortes em intervalos aproximados de três anos. Ele já havia tentado outros tratamentos, mas foi com o balanceamento cerebral que conseguiu ter uma vida normal, a cerca de dois meses. Hoje ele faz exercícios para manter seu cérebro 100% equilibrado e monitoramentos clínicos regulares. «Hoje durmo oito, nove horas por noite, tenho mais segurança para tomar decisões e a irritabilidade abaixou muito», comemora.

A técnica tem como principal ponto de partida a equilibração das diversas áreas do cérebro, buscando otimizar o funcionamento dos neurônios a partir do aumento de sinapses (conexões). Como explica o neurocieintista Paulo Faria, 39 anos, que desenvolveu o método, o paciente passa por estímulos visual, auditivo e vestibular, o que proporciona um equilíbrio entre os dois hemisférios do cérebro, corrigindo o «desajuste» entre eles.

Segundo ele, os resultados no tratamento do pânico podem começam a aparecer no primeiro mês, ao contrário dos tratamentos convencionais, em que os pacientes podem ficar anos necessitando de medicação. Mas ele alerta que os medicamentos ainda são importantes para os pacientes principalmente em casos de emergências.

Como salienta o psiquiatra do Instituto de Medicina Psicosomática (IMEP), Domingos Lopes Furtado, o novo tratamento faz o mesmo que os medicamentos psiquiátricos: estimula quimicamente os neurônios. A diferença é que o método tem uma resposta muito mais rápida e é natural. Ou seja, os elementos químicos que estimulam esses neurônios são do próprio paciente, produzidos a partir dos estímulos que o tratamento envia ao mesmo.

"Através do EEG espectral - biofeedback é possível ver onde é necessário intervir com estímulos (normalmente, os sintomas do pânico estão concentrados na região frontal). Usamos um dispositivo óptico com 32 canais de luz, sincronizado com um estímulo vestibular e com estímulos sonoros, através de um fone de ouvido», explica.

São colocados pequenos sensores na cabeça do cliente, que enviam ao computador as respostas cerebrais aos estímulos, que chegam em formato de ondas cerebrais como alfa, beta, delta, etc. Com isso, é possível juntar esses «formatos característicos» com as respostas emocionais, que são as manifestações de sudorese, taquicardia, medo de morrer, falta de ar e até mesmo diarréia.
Segundo o especialista, o pânico é gerado através de alguma vivência traumática como abuso sexual, uma situação de abandono ou perigo de vida, mas não há tempo definido para que o pânico se manifeste; não há uma idade certa para aparecer, mas a maioria casos estão concentrados em pessoas que têm entre 20 e 50 anos, o que não quer dizer que crianças e idosos também não possam desenvolver a doença. «Você pode ter passado por uma situação de risco de vida na sua infância e nem se lembrar disso. Aí um dia, muitos anos depois, pode viver uma situação semelhante e manifestar uma crise de pânico», afirma.

O pânico consiste na sensação de morte, falta de segurança ou mesmo impotência diante de alguma situação. «O problema do pânico é que a pessoa fica com medo constantemente, gerando uma situação de medo do medo. Então ela fica presa nesse ciclo de sempre achar que uma situação de emergência permeada totalmente por respostas orgânicas descontroladas está prestes a acontecer", comenta Paulo Faria. De acordo com Domingos Furtado, todos estão sujeitos a ataques de pânico. O problema é quando os ataques viram rotina.

Indicação também para AVC e traumas

O balanceamento cerebral tem outras aplicações além da doença do pânico.
Como ressalta o neurocientista Paulo Faria, o programa pode beneficiar pacientes que sofreram Acidente Vascular Cerebral (AVC - derrames e isquemia cerebral), seqüelas neurológicas causadas por acidentes traumáticos,atrasos no desenvolvimento infantil causados por dificuldades na gravidez ou parto e também déficit de aprendizagem (dislexia,hiperatividade, baixa concentração, etc). De acordo com Paulo Faria, o método pode atender a pacientes dessas enfermidades porque trabalha sobre o comando do corpo, que é o cérebro.
O psiquiatra Domingos Lopes Furtado, 53 anos, acredita que o método ainda deve demorar um pouco para se difundir, pois os equipamentos de aplicação e manutenção são caros, mas está esperançoso na difusão da metodologia. «Temos bilhões de neurônios e só utilizamos 5%. Os que estão inativos podem ser estimulados e ajudar os pacientes a compensar o que perderam em AVCs,isquemias, etc... O futuro já chegou», acredita. Já Paulo Faria destaca que um fator importante nesse projeto é que a tecnologia está a serviço da melhora da qualidade de vida das pessoas.

Ciclos

Paulo Faria ressalta que a metodologia analisa o funcionamento detalhado das diversas áreas e funções do cérebro, o que possibilita uma estimulação precisa dos dois hemisférios. Segundo o neurocientista, o cérebro tem variações de ciclos de atividade e, quando esses atingem desproporções na faixa entre 15 e 22 ciclos por segundo, normalmente a sensação de pânico é disparada. Ou seja, o tratamento faz com que os ciclos se normalizem perto da faixa predominante dos 10 ciclos por segundo.

* Publicado no Hoje em Dia, de 07/09/2005





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